sexta-feira, fevereiro 10, 2006

DESPORTO COMO PROBLEMA ANTROPOLÓGICO (continuação e fim)

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

A antropologia só nos últimos vinte anos é que começou a interrogar o desporto.
Para Norbeck (1986) o aparecimento da Antropologia do Desporto como área sistematizada, acontece em 1974 com a fundação da Associação para o Estudo Antropológico do Jogo.
Roger Caillois numa das obras sugere que um jogo praticado por determinado povo pode servir para definir alguns dos seus traços morais ou intelectuais, indiciando que esses mesmos jogos se constituirão como uma imagem da própria cultura, de uma época ou mesmo de uma civilização. Surgem ainda muitos autores com publicações interessantes acerca deste fenómeno, contudo resta referirmos que o estudo do desporto como actividade física perfeitamente organizada, codificada e estabilizada, não tem tido uma aderência que produza estudos profundos.
Assume-se portanto, que a Antropologia do Desporto é uma ciência recente que não teve tempo para cimentar e produzir estudos, pensamentos mais profundos, no entanto, encontra-se em constante evolução.

LINHAS DE INVESTIGAÇÃO ANTROPOLÓGICA

As linhas de investigação da antropologia consistem na compreensão do Homem, da sua história, da cultura, como ser social e sociável.
O Homem é um ser actuante, no mundo que o rodeia, dotado da capacidade de aprender, é um sistema aberto, moldável, plástico - é uma essência que consegue decidir-se livremente consoante determinados contextos.
Não obstante, o Homem assume condições do tipo situativo, em que as coordenadas espaço-tempo o revertem e situam num determinado tempo histórico.
Contudo, o Homem demarca-se dos demais seres pela sua capacidade social e de se sociabilizar através de uma conduta cultural que o torna único.
Estes três factores interligam-se constituindo os princípios orientadores da investigação antropológica, na medida em que o Homem, como ser que interaje com o meio social, possui a capacidade e apetência para aprender a cultura.

DIFERENTES DESAFIOS DO DESPORTO ENQUANTO PROBLEMA ANTROPOLÓGICO

Na actualidade o fenómeno do desporto assume proporções massivas nos mais variados campos, quer seja no estádio ou televisão, atravessando pela publicidade e, passando mesmo pelas roupas ou políticos. O desporto possui uma força muito para além do racional, consegue dignificar, humilhar ou até mesmo destruir personagens públicas. Possui uma força mediática capaz de engrandecer obras de âmbitos afastados do próprio desporto.
Este fenómeno é objecto de estudo por parte das ciências mais variadas permeabilziando o desporto às novas descobertas ciêntificas e às novas tecnologias, sendo ele mesmo um factor catalisador para novos saberes.
Neste sentido, o desporto exibe um enorme potencial de estudo por parte das ciências humanas, por exemplo, os jogos olímpicos permitem um inúmero conjunto de estudos sociais. Contudo, as ciências humanas não são limitativas e nem se restrigem ao olimpismo, mas antes, a todo um conjunto de jogos ou actividades corporais (que designamos por desporto) do qual o Homem é interveniente.
Noutra perspectiva, procuramos sediar e localizar numa época o desporto, e descobre-se que surge na Inglaterra na época referente à Revolução Industrial, tendo por base a Grécia Antiga, bem como as actividades corporais posteriores.
Nos tempos consequentes à Revolução Industrial o desporto assum-se como simples e mecanicista, pois o Homem era entendido como um sistema fechado que respondia a estímulos exteriores, sendo-lhe vulgarmente exigido que trabalha-se nos limites das suas capacidades. A constante evolução que rodeia o desporto desta altura produz termos como o Record ou mesmo aparelhos como cronómetro para medir tempos.
Porém, o Homem não é um ser fechado, incapaz, mas antes um ser aberto com espírito de luta, de resistência, enfim um inúmero canjunto de habilidades, que se expressam pela sua essência, competir.
O desporto pela sua estranheza assume vários contornos, tornando por vezes a tarefa mais aobrrecida numa tarefa atraente, trazendo para si um conceito de espectacularidade bem definido. O exemplo disso é uma actividade natural como a corrida que pode ser mediatizada pela essência de ser humano, competir.
É este simbolismo que o desporto assume e que é manifestamente atribuído pela essência do ser humano, e pela caracterização da ode olímpica, que o Homem enquanto atleta pode assumir um verdadeiro papél de superioridade, imitando os deuses.
Contudo, estas e outras concepções levaram a rupturas, isto é, uma primeira ruptura liga-se à existência de regras bem definidas e com alúém a fazê-las cumprir, regras essas que fazem diferir essa actividade daquela efectuada aquando do jogo arbitrário e conjuntural. A segunda, à existência de um espaço próprio para essas actividades. Este espaço e estas regras tornam-se significativas, fundando ontologicamente o desporto moderno.
É aqui que permitimos a entrada ao sagrado e ao profano, como forma de revitalizar e dar ênfase ao desporto, ao espaço e aos seus intervenientes. Existe pois uma essência que conduz o Homem e que lhe concebe o dom de dar continuidade à sua existência, à sua evolução, ao seu desporto.